Matéria sobre Exercício Físico e Saúde Mental

- Existe alguma comprovação médica de que ter sentimentos ruins, manter discussões inúteis e ser pessimista têm influência na nossa disposição e saúde?

Muitos trabalhos demonstram que o otimismo pode reduzir o risco de problemas de saúde e também está associado a uma recuperação mais rápida. Pesquisadores já demonstraram que mulheres que passaram por perdas significativas na vida (morte na família ou mesmo um divórcio) apresentaram maior risco de câncer de mama do que o grupo de mulheres que não passaram por situações semelhantes. Dessa forma, existem evidências, a partir dos resultados de alguns trabalhos, que mostram que uma postura otimista pode ter um efeito protetor ou mesmo terapêutico em relação a algumas doenças. Sabe-se também que pessoas com maior nível de estresse estão submetidas a um maior risco de infartos. Isso pode ser explicado devido à associação também já estabelecida entre o cérebro e o sistema imunológico. Existem algumas evidências que mostram que pessoas sob estresse modulam o sistema imunológico promovendo um processo inflamatório em todo o organismo. Uma das explicações dos infartos reside na inflamação das artérias coronárias. Tentando ser mais claro, funciona como se nosso quadro emocional e psicológico debilitado tornasse nossas artérias coronárias inflamadas e, com isso, aumentasse a nossa predisposição ao entupimento desses vasos sanguíneos, ocasionando o infarto. Estudos na mesma linha também foram capazes de mostrar que pessoas menos pessimistas apresentaram menor chance de apresentar um derrame cerebral. Por outro lado, um estudo alemão recente e com grande número de pessoas demonstrou que pessoas que têm uma visão pessimista do futuro vivem mais do que os otimistas. Os pesquisadores entrevistaram 40 mil pessoas entre os anos de 1993 a 2003. O risco de ter alguma doença ou morrer era quase 10% maior entre os otimistas. O estudo especula que o pessimismo tornou as pessoas mais alertas e preocupadas e, portanto, mais vigilantes em relação à sua saúde, servindo como fator de proteção.  

Como se vê, são necessários mais estudos para que se entenda melhor o funcionamento do estado de humor e suas implicações na saúde. Deve-se também ter bastante atenção à metodologia utilizada nesses trabalhos, uma vez interpretações errôneas e precipitadas dos resultados desses estudos podem conduzir a conclusões simplistas e que podem gerar mais confusão que esclarecimentos.

REFERÊNCIAS

1.      Optimism and Pessimism as Predictors of Change in Health After Death or Onset of Severe Illness in Family Health Psychology Copyright 2005 by the American Psychological Association 2005, Vol. 24, No. 4, 413-421

2.      Stressful Life Events and Risk of Breast Cancer in 10,808 Women: A Cohort Study Am J Epidemiol 2003;157:415-423

3.      Low pessimism protects against stroke: the Health and Social Support

(HeSSup) prospective cohort studyStroke.2010; 41: 187-190

4.      Forecasting Life Satisfaction Across Adulthood: Benefits of Seeing a Dark Future? Psychology and Aging © 2013 American Psychological Association

2013, Vol. 28, No. 1, 249 -261 http://www.apa.org/news/press/releases/2013/02/pessimism-future.aspx

- Quais as medidas que garantem mais energia e disposição às pessoas? A prática de exercícios físicos, por conta da liberação de endorfina, seria um exemplo?


- Por que quando a gente não cuida do corpo adequadamente, a nossa disposição cai?

Atualmente, o papel do exercício físico tanto na prevenção de doenças, assim como no seu tratamento, tem sido amplamente demonstrado através de estudos nessa área. Nos últimos anos, vem sendo publicado de forma contínua, estudos que demonstram que a inatividade física é um importante preditor de doenças cardiovasculares, diabetes do tipo 2, obesidade, alguns tipos de câncer (câncer de intestino e de mama), fraqueza músculo-esquelética, menor qualidade de vida e maior mortalidade por causas cardiovasculares e por todas as causas. Outras pesquisas já demonstram o papel positivo do exercício físico na esfera cognitiva, no estado de humor e mesmo em casos de Doença de Alzheimer e demência. Nos aspectos psicológicos destacam as teorias do aumento das endorfinas, das monoaminas (noradrenalina) e serotonina, assim como da menos conhecida, anandamida. Existem diferentes hipóteses para explicação das mudanças psicológicas provocadas pelo exercício físico, sobretudo na relação do humor e bem-estar, não existindo até o momento um consenso sobre o mecanismo exato que explique este fenômeno. Estudos mais recentes vêm demonstrando também que pessoas que se exercitam com frequência, quando são privadas desse hábito, podem prejudicar o seu estado de humor, apresentando quadros de tristeza, fadiga ou mesmo depressão. De uma forma geral, uma resposta satisfatória do humor ocorre após sessões de exercício aeróbico e/ou musculação com intensidades variadas. Entretanto, deve-se ficar atento às intensidades de exercício muito elevadas. Atividades físicas intensas demais podem causar um efeito inverso no humor, sobretudo naquelas pessoas que não possuem objetivos atléticos de alto rendimento semelhantes aos dos atletas profissionais. Sendo assim, diferentes tipos e intensidades de exercício podem causar benefícios do humor, desde que sejam prescritos de forma individualizada e praticados em um ambiente agradável e de forma que proporcionem estímulo e prazer ao ser executado.

REFERÊNCIAS

1.      David A. Raichlen, Adam D. Foster, Gregory L. Gerdeman, Alexandre Seillier and Andrea Giuffrida. Wired to run: exercise-induced endocannabinoid signaling in humans and cursorial mammals with implications for the "runner´s high". Journal of Experimental Biology, 2012 DOI:10.1242/​jeb.063677

2.      Boyle, G. J., & Joss-Reid, J. M. (2004). Relationship of  humour to health: A psychometric investigation. British Journal of Health Psychology, 9 (1), 51-66. Chaouloff, F. (1997).

3.      The serotonin hypothesis. In: Morgan, W. P. Physical activity and mental health (pp. 179-98). Washington DC: Taylor & Francis.

4.      A randomised, controlled study on the effects of a short‐term endurance training programme in patients with major depression Br J Sports Med. 2007 January; 41(1): 29-33.

5.      "Exercise Withdrawal Causes Mood Change Within Days" Anne Harding, Reuters Health, 5/12/06, reutershealth.com - See more at: http://hsionline.com/2006/05/30/what-is-olestra-2/#sthash.o8fedg5i.dpuf
 

Dr. Marconi Gomes da Silva

Presidente da Sociedade Mineira de Medicina do Exercício e do Esporte - Smexe