Entrevista - Exercício Físico na Terceira Idade

Jornal Estado de Minas

Quais são as principais causas da depressão e suas consequências no idoso?

 

A depressão é um distúrbio do humor com forte impacto funcional em qualquer faixa etária e que compromete intensamente a qualidade de vida. Caracteriza-se por uma falta de vitalidade geralmente acompanhada de sentimento de tristeza, baixa autoestima, falta de confiança, sentimentos de culpa generalizados, pessimismo e, em casos extremos, pode haver tendência ao suicídio. O quadro de depressão deve ser obviamente diferenciado da tristeza passageira, principalmente por apresentar sintomas por mais de duas semanas, alterações do comportamento, sintomas diários e na maior parte do tempo. Geralmente está relacionada com fatores biopsicossociais que prejudicam a capacidade de pensar, de sentir e de interagir com o meio.

Entre os idosos, a prevalência de depressão é alta. Trata-se também de um problema que pode aumentar a mortalidade, sobretudo naqueles com alguma doença crônico-degenerativa, pois existe uma influência recíproca na evolução clínica do paciente ao levá-lo a um menor autocuidado e a uma menor aderência ao tratamento instituído para outras doenças. Destaca-se também que o idoso deprimido apresenta uma maior chance de estar submetido a uma alimentação inadequada, à privação do sono e maior susceptibilidade às outras doenças.

O paciente idoso cuja depressão teve início na juventude ou na meia-idade e se prolongou na velhice, tende a apresentar componente genético significativo em sua causa. Por outro lado, naquele cuja depressão tenha iniciado após os 65 anos, a interferência genética tende a ser menos intensa e os fenômenos neurobiológicos tendem a ser mais importantes. Não se pode excluir a ação conjunta dos dois componentes (genético e neurobiológico) que se acumulam ao longo da vida.  Dentre os fatores neurobiológicos que podem conduzir à depressão de início tardio, destacam-se: alterações neuroendócrinas (alterações hormonais), alterações de neurotransmissores (redução da atividade serotoninérgica e noradrenérgica), alterações vasculares e processos de degeneração de circuitos corticais e subcorticais (alterações cerebrais), responsáveis pelo processamento e elaboração da vida afetiva e emocional.

Entre os idosos existem fatores de risco especiais para o desenvolvimento da depressão que devemos destacar: sexo feminino, a solidão, episódios depressivos prévios, doenças clínicas associadas, perdas de cônjuge e filhos, dificuldades financeiras, diminuição dos contatos sociais, falta de motivação para planejar o futuro, confrontação com a própria finitude, baixa de autoestima e autoimagem, falta de um papel social, perdas das capacidades físicas (menor autonomia/independência), internações frequentes e uso de muitos medicamentos. Uma boa dica é averiguar se o uso de algum medicamento (antiinflamatório, antihipertensivo, remédio para insônia, etc.) não estaria levando ao surgimento de sintomas depressivos.

Quando o início da depressão é tardio, frequentemente está associada às outras doenças clínicas e a anormalidades estruturais e funcionais do cérebro. Se não tratada, a depressão aumenta o risco de morbidade clínica e da mortalidade, sobretudo em idosos hospitalizados e institucionalizados com enfermidades gerais.

 

A partir da depressão o idoso pode ser acometido de outras doenças mentais?

Alguns estudos já estabelecem alguma relação entre o quadro depressivo e o desenvolvimento de outras doenças mentais, sobretudo nos processos demenciais e na Doença de Alzheimer.

Uma pesquisa realizada pela professora de Psiquiatria da Califórnia, Dra. Deborah Barnes, publicada em 2012 em uma revista de Geriatria (Arch Gen Psychiatry),sugere que pessoas com depressão em uma fase mais tardia da vida possuem maior risco de desenvolver o mal de Alzheimer. Nesse estudo, os pesquisadores descobriram que sintomas de depressão na meia idade aumentavam em 20% os riscos de demência vascular e que a depressão na terceira idade levava a um aumento de 70% no risco do Mal de Alzheimer, quando comparadas com pessoas sem depressão. O estudo sugere que a depressão pode favorecer alterações vasculares que colocam as pessoas em maior risco para a demência. Segundo esses pesquisadores, a depressão poderia ser um estágio anterior ou constituir um fator de risco à demência.

 

Como o exercício físico pode ser benéfico para o paciente idoso com depressão?

Por que o exercício físico também é bom para a cabeça (cérebro)?

O exercício físico tem a capacidade de diminuir ou até mesmo acabar com a depressão no idoso?

O exercício físico pode retardar a depressão no idoso?

Pode evitar com que esta o acometa, praticando exercício físico antes de se tornar idoso?

 

Cerca de 30 a 50% dos pacientes depressivos apresentam uma resposta inadequada ao primeiro antidepressivo utilizado. Dentre as principais causas da falta de eficácia destacam-se: dosagem muito baixa, duração muito curta do tratamento, falta de aderência e efeitos colaterais indesejáveis. A solução pode estar na prática de atividade física, principalmente para os idosos. Embora ainda não esteja completamente bem estabelecida a maneira como os exercícios físicos atuam na depressão, existem vários mecanismos sugeridos que tentam explicar como a atividade física programada pode reduzir a sua incidência e ajudar no seu tratamento. Contudo, sem ainda mostrarem conclusões definitivas, dois mecanismos constantemente discutidos incluem níveis aumentados de dois tipos de neurotransmissores após a realização de exercícios, as chamadas monoaminas e as endorfinas, substâncias relacionadas ao bem estar sentido após a realização dos exercícios. Além desse fator, a prática de exercícios físicos está associada à prevenção e ao melhor controle de outras doenças, tais como diabetes e doenças cardíacas. O controle dessas doenças pelo exercício físico pode prevenir também o início da depressão na velhice. O indivíduo com menos doenças no decorrer da vida tende a ter menor risco de desenvolver quadros depressivos quando idoso. Sendo assim, prevenindo outras doenças ao se fazer exercícios físicos regulares, estamos também prevenindo a depressão.

Deve-se deixar bem claro que envelhecer não é sinônimo de adoecer, especialmente quando as pessoas desenvolvem hábitos de vida saudáveis. O ritmo e a intensidade das alterações que acompanham o processo de envelhecimento dependem de características individuais, como a herança genética, fatores ambientais, ocupacionais, sociais e culturais aos quais o indivíduo esteve exposto ao longo da vida. Sendo assim, o hábito de vida saudável, como a prática regular e eficiente de exercícios físicos, pode ser uma ferramenta útil tanto na prevenção de sintomas depressivos, assim como no tratamento da depressão já instalada.

O paciente deprimido diminui o autocuidado, recusa-se a se alimentar adequadamente e não toma as medicações prescritas, permanecendo grande parte do tempo restrito ao leito ou com pouca mobilidade física. Esses fatores, associados à debilidade clínica geral, assim como alterações pulmonares que provocam a um maior acúmulo de secreções nas vias respiratórias e diminuição da imunidade, levam a uma maior vulnerabilidade a processos infecciosos.

Além disso, a inatividade física pode favorecer o descontrole da pressão arterial com agravamento do quadro hipertensivo, além do comprometimento da circulação sanguínea, tanto no cérebro, coração e outros órgãos, aumentando o risco de derrames, infarto e a mortalidade de uma forma geral.

Os estudos também sugerem que idosos com o diagnóstico de depressão em tratamento com medicamentos e também engajados em programas de exercícios físicos regulares apresentam menores taxas de recaída da depressão, demonstrando o aspecto preventivo do exercício físico em pacientes deprimidos bem controlados.

O exercício físico apresenta uma vantagem em relação ao tratamento medicamentoso por não apresentar efeitos colaterais indesejáveis, além de substituir a atitude passiva de tomar uma pílula, por uma postura ativa por parte do paciente que pode resultar na melhoria da autoestima, autoconfiança e da sensação de autonomia. À medida que o idoso progride fisicamente com a prática de exercício físico, melhorando sua resistência, sua força muscular e readquirindo sua força de trabalho, novas perspectivas surgem para esse indivíduo. O idoso que retoma sua independência física para atividades do cotidiano como: fazer compras, subir em um ônibus, subir escadas, carregar pesos, andar distâncias maiores, tomar banho sozinho, cuidar de crianças, fazer a própria comida, dentre outras conquistas, vislumbra um futuro mais promissor e menos circunscrito a uma casa, um quarto ou uma cama.

 

Não há riscos para o idoso fazer exercícios físicos? Quais os cuidados e dicas para os idosos que desejam iniciar exercícios físicos?

É importante identificar algum tipo de limitação de ordem médica, principalmente de origem cardiovascular e ortopédica, que possa colocar em risco o idoso que decide se exercitar de forma regular. Sendo assim, uma avaliação que chamamos de pré-participação, deve ser realizada visando identificar problemas como a hipertensão arterial (pressão alta), arritmias cardíacas, obstrução ao fluxo nas artérias coronárias (risco de infarto), diabetes, assim como problemas ortopédicos e neurológicos que possam comprometer a progressão do treinamento.

Além dos exercícios aeróbicos, exercícios que aprimorem a aptidão neuromuscular, como o equilíbrio e a agilidade, também devem ser recomendados para a população idosa. Deve-se privilegiar exercícios de força (musculação), evidentemente respeitando os limites individuais inerentes ao envelhecimento, mas que permitam um aumento da capacidade na execução de exercícios muito comuns na vida diária, tais como: carregar sacolas de compras, pegar um ônibus, subir e descer escadas, caminhadas para deslocamento, trabalhos domésticos e atividades laborativas.

O idoso deve praticar uma modalidade esportiva que seja prazerosa e com a qual ele tenha aptidão, evitando-se assim a frustração. As modalidades que podem ser mais adequadas para as pessoas com depressão são aquelas mais calmas, menos exigentes e de fácil realização. Elas são caracterizadas por trabalhar mais a concentração, a respiração e o relaxamento.

Deve-se optar por treinos de dificuldade média, nos quais a pessoa se sinta segura e capaz de desenvolver e avançar com sucesso. Indica-se um início de treino de um estágio mais fácil para um mais difícil. Exigir um rendimento muito alto precocemente pode ter um efeito contrário ao pretendido.

O esporte competitivo pode ser uma boa solução somente nos casos em que haja verdadeira motivação para essa prática. Exercícios físicos muito competitivos na população idosa e com quadro de depressão podem resultar em aumento de estresse e poderá ser prejudicial. Optar por uma modalidade mais tranquila e não competitiva é geralmente uma melhor opção.

 

Além do bem que pode causar ao idoso com depressão, quais as vantagens de se fazer exercício físico durante a terceira idade?

Os exercícios físicos realizados regularmente e em uma intensidade eficiente, ou seja, capaz de causar modificações metabólicas, pulmonares, cardíacas e músculo-esqueléticas (ortopédicas) têm sido associados a vários fatores favoráveis a uma melhor qualidade de vida do idoso. Esses benefícios abrangem uma melhor circulação do sangue pelo corpo, sobretudo, no cérebro. Capacidade de atenção concentrada, memória de curto prazo e desempenho dos processos executivos (planejamento de ações sequenciais logicamente estruturadas e capacidade de autocorreção das ações) constituem funções cognitivas imprescindíveis na vida cotidiana e que são estimuladas durante a prática de exercícios bem  planejados.

Cada vez mais estudos demonstram o benefício da atividade física para a redução dos níveis de hipertensão arterial, na melhoria da função pulmonar com prevenção das doenças pulmonares, além de um ganho de força muscular e de massa óssea, gerando um desempenho mais eficiente das articulações. Esses podem ser considerados os outros benefícios que o idoso obtém com a prática regular e adequada de exercícios físicos, constituindo-se em importante fator de prevenção de quedas e outros acidentes, que também se apresentam como fatores facilitadores da depressão.

Hoje está bem estabelecido que o exercício físico, principalmente quando praticado em grupo, eleva a autoestima do idoso, favorece a implementação das relações psicossociais e possibilita o reequilíbrio emocional.

 

Dr. Marconi Gomes da Silva

Presidente da Sociedade Mineira de Medicina do Exercício e do Esporte - SMEXE

 

 

Fonte:

1.     Wen CP, Wai JP, Tsai MK, et al. Minimum amount of physical activity for reduced mortality and extended life expectancy: a prospective cohort study. Lancet 2011; 378: 1244-53.

2.     F. Stella, S. Gobbi, Danilla I. Corazza & J. L. R. Costa - Depressão no Idoso: Diagnóstico, Tratamento e Benefícios da Atividade Física - Motriz, Rio Claro, Ago/Dez 2002, Vol.8 n.3, pp. 91-98

3.     Lee I-M, Shiroma EJ, Lobelo F, Puska P, Blair SN, Katzmarzyk PT, for the Lancet Physical Activity Series Working Group. Eff ect of physical inactivity on major non-communicable diseases worldwide: an analysis of burden of disease and life expectancy. Lancet 2012; published online July 18. http:// dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(12)61031-9.

4.     Deborah E. Barnes, PhD, MPH; Kristine Yaffe, MD; Amy L. Byers, PhD, MPH; Mark McCormick, MD; Catherine Schaefer, MD; Rachel A. Whitmer, PhD Arch Gen Psychiatry. 2012;69(5):493-4

5.     Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade Academia Brasileira de Neurologia - Demência do Idoso: Diagnóstico na Atenção Primária à Saúde - julho de 2009  - Autores: Ramos AM, Stein AT, Castro Filho ED, Chaves MLF, Okamato I, Nitrini R