Chocolate e Coração

O chocolate definitivamente não é um alimento qualquer. Proveniente do fruto do cacaueiro (Theobroma cacao) e utilizado literalmente há mais de 1000 anos, seu uso vem ultrapassando as necessidades compulsivas dos chocólatras e dos admiradores mais moderados para se tornar objeto de estudos científicos que tentam estabelecer seus benefícios à saúde. De afrodisíaco a protetor do coração, passando também por antidepressivo, o chocolate tem mostrado que realmente pode ser chamado de "produto dos deuses".

Quando se pensa em chocolate, não se pode esquecer que muitas substâncias estão presentes em sua composição, dentre elas, destacamos os triptofanos, a feniletilamina, a teobromina, a cafeína, os flavonóides, vitaminas e sais mineirais. Mas não vamos esquecer também que existe gordura, o que não torna essa tentação tão divina assim. Em seu processamento, alguns tipos de chocolate podem receber leite e gordura hidrogenada, tornando-os verdadeiros vilões à saúde por aumentar muito seu valor calórico. O chocolate amargo parece ser a melhor opção, feito a partir dos grãos de cacau torrados, sem adição de leite, é o mais rico em flavanóide, um antioxidante que vem sendo muito estudado.

Os chocolates ao leite e aqueles denominados a couverture por apresentarem em sua composição leite e manteiga de cacau, respectivamente, comprometem os benefícios advindos dos outros componentes. Já o chocolate branco, por não conter semente de cacau, parece não apresentar qualquer benefício à saúde. Outra armadilha que deve ser considerada é o consumo exagerado dos chamados "chocolates diet". Estes, por não conterem açúcar em sua composição, possuem mais gordura, sorbitol e manitol, deixando-os além de mais calóricos, também responsáveis por distúrbios gastrintestinais, como flatutência (produção de gases) e diarréia.

Mas vamos aos pontos positivos. Embora seja também o terror das dietas, o chocolate contém muitas substâncias que têm merecido atenção da sociedade científica. Dentre elas, destacam-se os flavonóides. Estes são compostos fenólicos que funcionam em nosso organismo como antioxidantes, capazes de neutralizar os denominados radicais livres, considerados prejudiciais. Cientistas vem tentando produzir um chocolate ainda mais rico em flavonóides, mas ao que tudo indica, existe algum prejuízo em seu sabor quando submetido à essa alteração. Os flavonóides são pigmentos hidrossolúveis presentes em vegetais que pertecem ao grupo dos polifenóis, que por sua vez, possuem várias subdivisões em classes, incluindo as flavanas, flavanonas, isoflavonas, catequinas e as antocianinas, dentre outras.

Além de servir como antioxidante, os flavonóides estão relacionados com a redução do mau colesterol (LDL - Low Density Lipoproteins) e aumento dos níveis de bom colesterol (HDL - High Density Lipoproteins). Outra ação já bastante destacada atribuída ao chocolate é seu efeito hipotensor. Alguns trabalhos mostram que a ingesta de chocolate pode reduzir tanto a pressão arterial sistólica como a pressão arterial diastólica.

Entretanto, as evidências epidemiológicas dos benefícios cardiovasculares produzidos pelos flavonóides são ainda controversas, já que nem todos os estudos mostraram essa relação benéfica. Trabalhos realizados nos países baixos, como a Holanda, que demostraram um efeito cardioprotetor do chocolate, não puderam ser reproduzidos em outros países. Uma grande revisão feita por cientistas do Reino Unido,  Estados Unidos e Austrália publicada na revista American Journal of Clinical Nutrition em 2008, revelou que chocolates ricos em polifenóis são capazes de reduzir a pressão arterial sistólica em 6mmHg e a pressão arterial diastólica em 3 mmHg. Apesar disso, o mesmo trabalho conduzido por Hooper e colaboradores destaca a dificuldade em se estabelecer qual a classe de flavonóide responsável pelos benefícios descritos, já que de todos os estudos avaliados nessa grande revisão (cerca de 133), apenas 10 foram capazes de estudar algum flavonóide isoladamente. Além disso, outros alimentos derivados dos vegetais e obviamente ricos em flavonóides também poderiam estar relacionados com os benefícios encontrados. Ressalta-se a existência de um grande número de outras substâncias presentes no chocolate, tais como: teobromina, triptofano, cafeína e minerais como o potássio ou magnésio às quais também poderiam ser atribuídas, ao menos em parte, os efeitos cardioprotetores descritos.

Como se pode concluir, o chocolate não é um alimento qualquer, envolve em sua constituição inúmeros componentes que parecem exercer efeitos realmente benéficos no fluxo sanguineo, nos níveis pressóricos e no perfil lipídico (colesterol). Entretanto, estudos realmente grandes e com um número maior de pacientes, chamados de randomizados, ainda não estão disponíveis para definir as doses consideradas ótimas e capazes de conferir a proteção cardiovascular pretendida.

Nenhuma sociedade médica recomenda a ingestão regular de chocolate, sendo que crianças não deveriam consumir mais de 30g e os adultos não deveriam ultrapassar de 50g,  ressaltando ainda que não deve ser consumido diariamente.

Com isso, antes de cair em tentação na Páscoa que se aproxima, vale o conceito da moderação, evitando-se o consumo exagerado, sem no entanto, abrir mão desse alimento de sabor único e ainda candidato à panacéia.
 
Dr. Marconi Gomes da Silva - CRM 34604

Médico do Esporte

Presidente da Sociedade Mineira de Medicina do Exercício e do Esporte - Smexe


 
REFERÊNCIAS:

  1. Huxley RR, Neil HA. The relation between dietary flavonol intake and coronary heart disease mortality: a meta-analysis of prospective cohort studies. Eur J Clin Nutr 2003;57:904-8.
 
  1. Hooper L, Kroon PA, Rimm EB, et al. Flavonoids, flavonoid-rich foods, and cardiovascular risk: a meta-analysis of randomized controlled trials. Am J Clin Nutr 2008;88:38 -50.
 
  1. Taubert D, Roesen R, Schömig E. Effect of cocoa and tea intake on blood pressure: a meta-analysis. Arch Intern Med 2007;167:626 -34.
 
  1. Taku K, Umegaki K, Sato Y, Taki Y, Endoh K, Watanabe S. Soy isoflavones lower serum total and LDL cholesterol in humans: a metaanalysis of 11 randomized controlled trials. Am J Clin Nutr 2007;85:
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5.      Di Tomaso E, Beltramo M, Piomelli D (1996) Brain cannabinoids in chocolate. Nature 382: 677-678.
 

6.      Serafini M et al. (2003) Plasma antioxidants from chocolate. Nature 424: 1013