Anabolizantes na prática esportiva

1.      Bom, gostaria de saber sua opinião a respeito do esporte e os riscos de suplementação e anabolizantes à saúde destes atletas.

2.      Diferencie também, por gentileza, os tipos de anabolizante, já que as pessoas de maneira geral têm a tendência de pensar que todos são prejudiciais à saúde.

3.      Se o atleta resolve que vai usar anabolizante, que cuidados ele deve ter? Sempre procurar um médico para prescrever? Educadores físicos podem estão aptos para prescrever?

ANABOLIZANTES NA PRÁTICA ESPORTIVA

Antes de qualquer coisa devemos rever alguns conceitos para evitar confusões. De uma forma geral, as substâncias ou métodos utilizados na tentativa de melhorar o desempenho esportivo são chamados de "recursos ergogênicos". Esses recursos ergogênicos incluem: agentes farmacológicos como anfetaminas, cafeína, esteróides anabolizantes, precursores da testosterona (androstetenediona, desidroepiandrosterona-DHEA), agentes beta-agonistas usados na asma (salbutamol, clembuterol, terbutalina), insulina, hormônio do crescimento, antioxidantes, vitaminas e aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA - Isoleucina, Leucina e Valina), além de outros métodos como: controle do estresse, música, inalação de oxigênio, e doping sanguíneo (transfusão de sangue).

De uma infinidade de suplementos alimentares (aminoácidos, antioxidantes, vitaminas, vanádio, cromo, etc) não existe argumento científico que indique o uso de qualquer um deles, exceto, para o aminoácido creatina, quando utilizado em esportistas de elite/profissionais, em esportes de alta potência ou no início de um exercício de resistência (também chamado de endurance). Esquemas que envolvem a utilização de creatina por prazos curtos (máximo de 3g ao dia) podem melhorar a capacidade de manter a força muscular e a produção de potência muscular em esportes de explosão. Algumas pessoas tentam o uso dessa substância de forma crônica, ou seja, por longos períodos, acreditando no ganho de massa muscular e do desempenho esportivo. Entretanto, nesse caso, o ganho pode ser falsamente atribuído à creatina, quando na verdade, deve-se ao ganho natural proveniente do programa de treinamento. Para complicar ainda mais a utilização da creatina, o seu uso parece aumentar a massa corporal mais pela retenção hídrica (acúmulo de água no corpo) do que pela síntese protéica (produção de massa muscular). Esse efeito faz com que alguns atletas utilizem diuréticos para perder o líquido acumulado e o ganho excessivo de peso, para não prejudicar a performance atlética. O uso excessivo de creatina, além das doses indicadas, pode também sobrecarregar os rins, prejudicando seu funcionamento. No atleta amador ou no praticante habitual de atividades físicas, a utilização de suplementos industrializados, protéicos ou vitamínicos não deve ser incentivada, uma vez que não confere benefícios à saúde e podem ainda causar danos ao organismo. Além disso, a alimentação saudável e equilibrada já oferece todas as substâncias necessárias para o desempenho esportivo sem fins competitivos. Recentemente, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) liberou o uso de creatina, mas somente para atletas profissionais, uma vez que estudos demonstraram sua segurança em doses corretas. Mesmo assim, a prescrição da creatina, exclusivamente para atletas profissionais, ainda é alvo de controvérsia.

Partindo para outro tipo de substância, temos os esteróides anabolizantes. São hormônios que podem ser exatamente iguais aos produzidos pelo corpo (endógenos/naturais), mas fornecidos como medicamento (via oral ou intramuscular) ou então sintéticos (exógenos), não produzidos pelo organismo. A testosterona é a principal representante dessa classe de substâncias. Ela é um esteróide de efeito anabolizante e de ação androgênica, ou seja, produz aumento de tamanho (anabolizante) e produz características sexuais masculinas (androgênico). Os cientistas então criaram os esteróides sintéticos (exógenos) tentando reproduzir, sobretudo, os efeitos anabolizantes (para crescimento). Entretanto, os dois efeitos nunca podem ser completamente separados um do outro. Quando mulheres usam esse tipo de hormônio, passam a ter características masculinas: aumento na quantidade de pêlos, voz mais grossa e maior massa muscular.  Os esteróides são normalmente utilizados para o tratamento de pacientes com atrofia muscular conseqüente ao tempo prolongado no leito, vítimas de doenças crônicas debilitantes (câncer, AIDS) e em determinadas doenças onde existe uma deficiência desse hormônio. Com o tempo, pensou-se que essas drogas poderiam aumentar a massa e força muscular em atletas. Tentando provar isso, os cientistas utilizaram as doses recomendadas para o tratamento em humanos, conforme as exigências dos comitês de pesquisa, mas nessas doses, não se chegou a um consenso. Paralelamente a essas pesquisas, academias e treinadores de todo o mundo passaram a utilizar essas drogas com doses 10 a 100x superiores àquelas utilizadas nas pesquisas oficiais. Dessa maneira, os resultados no ganho de massa e força finalmente apareceram. Obviamente, naquela época, os efeitos colaterais dessa superdosagem ainda não eram totalmente conhecidos ou eram negligenciados. Devido a razões de ordem ética e aos efeitos nocivos à saúde, essas substâncias tiveram o uso proibido pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) a partir de 1976, na Olimpíada de Montreal, onde foi realizado pela primeira vez o controle de anabolizantes. Na metade da década de 80, o problema atingiu o ápice, fazendo com que as equipes profissionais e universitárias instituíssem testes para controle dessas substâncias. A detecção dessas substâncias nem sempre é simples, já que muitos atletas tentam adulterar amostras, desde a simples troca do material até o uso de medicamentos que interfiram na sua identificação. Além disso, existe a dificuldade em se detectar a alteração do padrão considerado normal de hormônios que já existem no organismo normalmente. Quando se utilizam os mesmos hormônios produzidos no corpo, mas em altas doses, para melhorar de forma irregular o rendimento esportivo, muitos fatores podem dificultar a comprovação de doping.

Devido aos inúmeros efeitos deletérios causados pelos esteróides anabolizantes, seu uso em atleta profissional, amador e recreacional deve ser totalmente proibido. A utilização desses hormônios pode obviamente melhorar o rendimento esportivo e promover corpos mais musculosos, mas existem razões inquestionáveis de ordem ética e médica que contra-indicam o seu uso. Estudos evidenciaram uma piora significativa nas taxas de colesterol dos usuários, maior oleosidade da pele, aumento da acne, aumento da pressão arterial, impotência sexual, danos à função do fígado e aumento no risco cardiovascular. Enfim, efeitos colaterais totalmente proibitivos. Essas substâncias são consideradas doping, sendo proibidas pela  World Anti-doping Agency (WADA). 

Legalmente, nenhum profissional não médico tem o direito de prescrever essa medicação. Mesmo o médico, só poderá prescrever esteróides anabolizantes em situações muito específicas, mas nunca com o objetivo de melhorar o rendimento esportivo. Não existe dose permitida quando o objetivo é obter vantagens competitivas em qualquer modalidade esportiva, muito menos para fins estéticos. O praticante de atividade física que obtém esse medicamento o faz de maneira completamente irregular. A procedência de esteróides anabolizantes em alguns casos torna a sua administração ainda mais perigosa, já que a substância pode ser de uso veterinário, pode estar contaminada ou com a dosagem diferente da referida no rótulo. Existem muitos laboratórios ilegais que produzem esses hormônios e que são vendidos no chamado "mercado negro".

Cabe ao médico e a qualquer profissional da área de saúde desestimular de forma veemente qualquer utilização de anabolizantes. O uso dessas substâncias normalmente é estimulado por interesses em superar limites, na pressão mercadológica do mundo esportivo e ao culto do corpo "perfeito" a qualquer custo. É preciso rever conceitos morais e éticos, assim como avaliar as questões de ordem psicológica, com o objetivo de impedir o uso dos esteróides anabolizantes.

Dr.Marconi Gomes da Silva/CRM 34604

Presidente da Sociedade Mineira de Medicina do Exercício e do Esporte (SMEXE)